Flávio Dieguez
O
economista André Urani teve participação
marcante no colóquio
Juventude, Cidades e
Circulação, realizado recentemente no Rio de Janeiro a
propósito do programa Jovens Urbanos, do Cenpec e da Fundação
Itaú Social. Urani iniciou sua intervenção
reafirmando sua avaliação de que o Rio de Janeiro "tem
uma capacidade extraordinária de desperdiçar os
jovens". Ele se refere, especialmente, ao fato de o Rio criar
poucas condições de trabalho para uma grande parcela da
população jovem.
Urani
não é pessimista, ao contrário. Ele pensa que a
situação é favorável, atualmente, até
porque há uma movimentação forte, e crescente,
em torno de ações voltadas para a juventude, entre as
quais ele menciona o programa Jovens Urbanos. Pesquisador do
Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, IETS, e professor da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Urani acha, apenas, que esse
grande conjunto de ações ainda têm ser melhor
concatenadas.
"Quando
eu falo de desperdício dos jovens, estou me referindo
sobretudo à faixa de 15 a 17 anos. E na região
metropolitana do Rio você tem hoje menos de 50% dos jovens de
15 a 17 anos efetivamente matriculados no ensino médio".
"Estamos dilapidando a vantagem comparativa que nós tínhamos
na educação. Nós, no Rio de Janeiro, ainda temos
uma população adulta relativamente escolarizada - é
pior do que o Paraguai, é verdade, mas é melhor do que
São Paulo. Apesar disso, enquanto em São Paulo a
matricula no ensino médio é de quase 70%, aqui não
chegamos a 50%. O que é uma tragédia: estamos
hipotecando o nosso futuro".
Isso
tem muito a ver com a economia, segundo ele, já que o Rio tem
tido um desempenho econômico mais fraco do que o de outros
estados. "Bom, o Rio nos últimos dois anos experimentou uma
recuperação interessante. A renda está
aumentando, o desemprego está caindo. Mas os dados mais
recentes do IBGE (de 2004) mostram que o Rio tem o mesmo PIB que
tinha há mais de 20 anos. Na região metropolitana,
representando um conjunto de 20 cidades, a gente está no mesmo
nível que em 1980. O Brasil cresceu pouco, nós não
crescemos nada".
Mas
a economia não é tudo: para Urani também é
preciso romper com condições sociais e culturais
restritivas. "Os nossos jovens", diz ele, "particularmente da
comunidade de baixa renda, têm enorme dificuldade de se
imaginar em outros lugares". E explica dizendo que, quando se pensa
em construir um centro de lazer ou de cultura para os jovens de baixa
renda, imediatamente se propõe que o centro seja feito na
periferia. "Eu não vejo porque, necessariamente,
tenha que ser ali. Tem que romper com isso. O grande desafio é
justamente gerar acesso à cidade, aumentar a capacidade de os
jovens fazerem suas próprias escolhas e ter acesso aos
equipamentos da cidade por inteiro". "Qualquer
estratégia para a juventude, na minha opinião, tem que
tentar romper estas prisões de tempo e espaço. Tem que
ter acesso a cultura, esporte, lazer, e não é porque é
pobre que vai ser obrigado a jogar futebol ou capoeira - se quiser
jogar badminton (jogo similar ao tênis), por que não?"
Do
lado positivo, Urani enfatizou, entre outras coisas, que existe hoje
um grande número de ações do governo e da
sociedade, inclusive das ONGs. Entre elas, Urani mencionou o programa
Jovens Urbanos. E reforçou: "não é por falta
de iniciativas das diferentes esferas de governo, da sociedade civil
e do setor privado que a juventude pobre do Rio de Janeiro tem se
visto, ultimamente, tão sem expectativas. O que tem faltado,
até o presente momento, é uma maior harmonização
desses esforços, bem como uma estratégia melhor
definida para nortear o conjunto dessas ações."
Urani
mesmo tem procurado meios de articular idéias e propostas para
superar as dificuldades apontadas por ele. Em maio deste ano, por
exemplo, ele sugeriu criar um cartão eletrônico nos
moldes do Bolsa Família, do governo federal. Durante o
colóquio, Urani explicou que se poderia destinar uma soma
considerável de recursos - da ordem de 60 milhões de
reais ao ano - para financiar as necessidades sociais e de
desenvolvimento dos jovens. Esse valor refere-se a cerca de 500 reais
por mês, per capita, num universo de 9 000 jovens do Rio, já
selecionados como beneficiários do Programa de Aceleração
do Crescimento, o PAC, do Governo Federal. "A
idéia é gastar os recursos em equipamentos sociais para
os jovens e outras comunidades, para financiar a mobilidade, para
financiar a circulação, para financiar este tipo de
coisa que está se discutindo aqui".
Os
500 reais seriam depositados numa conta do próprio jovem - e
não da mãe dele, como no caso do Bolsa-Família -
e, em contrapartida se
exigiria dos jovens uma série de iniciativas. Estar
matriculado no ensino médio seria uma contrapartida crucial,
segundo Urani. Não ter reprovações, seria outra.
"O
que se busca" disse o economista, "é estimular os
adolescentes das comunidades pobres do Rio de Janeiro a abandonarem a
ociosidade, incentivando o ensino médio e outras formas de
acúmulo de capital humano, seja no campo educacional, cultural
e/ou esportivo". Ao mesmo tempo, "se estimularia a prática
de atividades que sejam úteis para a qualidade de vida de suas
comunidades, bem como uma maior circulação pela cidade
como um todo. Espera-se, com isso, contribuir para uma maior
racionalização das políticas públicas e à
formação de cidadãos mais produtivos e com maior
capacidade de exercitar plenamente sua cidadania".
Reportagens relacionadas:
-
"A juventude
precisa de uma política pensada para ela"
-
O grande desafio é gerar acesso à cidade
-
O poder público
e a juventude carioca
-
Jovens Urbanos abre
espaço para a juventude do Rio
-
O Governo Federal e
as políticas de juventude
-
São Paulo e as
políticas de juventude
-
BH e as políticas
de juventude