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Juventude : O grande desafio é gerar acesso à cidade
em 25/10/2007 (1645 leituras)

Flávio Dieguez

Jovens de Manguinhos, na zona norte do Rio de JaneiroO economista André Urani teve participação marcante no colóquio Juventude, Cidades e Circulação, realizado recentemente no Rio de Janeiro a propósito do programa Jovens Urbanos, do Cenpec e da Fundação Itaú Social. Urani iniciou sua intervenção reafirmando sua avaliação de que o Rio de Janeiro "tem uma capacidade extraordinária de desperdiçar os jovens". Ele se refere, especialmente, ao fato de o Rio criar poucas condições de trabalho para uma grande parcela da população jovem.

Urani não é pessimista, ao contrário. Ele pensa que a situação é favorável, atualmente, até porque há uma movimentação forte, e crescente, em torno de ações voltadas para a juventude, entre as quais ele menciona o programa Jovens Urbanos. Pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, IETS, e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Urani acha, apenas, que esse grande conjunto de ações ainda têm ser melhor concatenadas.

"Quando eu falo de desperdício dos jovens, estou me referindo sobretudo à faixa de 15 a 17 anos. E na região metropolitana do Rio você tem hoje menos de 50% dos jovens de 15 a 17 anos efetivamente matriculados no ensino médio". "Estamos dilapidando a vantagem comparativa que nós tínhamos na educação. Nós, no Rio de Janeiro, ainda temos uma população adulta relativamente escolarizada - é pior do que o Paraguai, é verdade, mas é melhor do que São Paulo. Apesar disso, enquanto em São Paulo a matricula no ensino médio é de quase 70%, aqui não chegamos a 50%. O que é uma tragédia: estamos hipotecando o nosso futuro".

Isso tem muito a ver com a economia, segundo ele, já que o Rio tem tido um desempenho econômico mais fraco do que o de outros estados. "Bom, o Rio nos últimos dois anos experimentou uma recuperação interessante. A renda está aumentando, o desemprego está caindo. Mas os dados mais recentes do IBGE (de 2004) mostram que o Rio tem o mesmo PIB que tinha há mais de 20 anos. Na região metropolitana, representando um conjunto de 20 cidades, a gente está no mesmo nível que em 1980. O Brasil cresceu pouco, nós não crescemos nada".

Mas a economia não é tudo: para Urani também é preciso romper com condições sociais e culturais restritivas. "Os nossos jovens", diz ele, "particularmente da comunidade de baixa renda, têm enorme dificuldade de se imaginar em outros lugares". E explica dizendo que, quando se pensa em construir um centro de lazer ou de cultura para os jovens de baixa renda, imediatamente se propõe que o centro seja feito na periferia. "Eu não vejo porque, necessariamente, tenha que ser ali. Tem que romper com isso. O grande desafio é justamente gerar acesso à cidade, aumentar a capacidade de os jovens fazerem suas próprias escolhas e ter acesso aos equipamentos da cidade por inteiro". "Qualquer estratégia para a juventude, na minha opinião, tem que tentar romper estas prisões de tempo e espaço. Tem que ter acesso a cultura, esporte, lazer, e não é porque é pobre que vai ser obrigado a jogar futebol ou capoeira - se quiser jogar badminton (jogo similar ao tênis), por que não?"

Do lado positivo, Urani enfatizou, entre outras coisas, que existe hoje um grande número de ações do governo e da sociedade, inclusive das ONGs. Entre elas, Urani mencionou o programa Jovens Urbanos. E reforçou: "não é por falta de iniciativas das diferentes esferas de governo, da sociedade civil e do setor privado que a juventude pobre do Rio de Janeiro tem se visto, ultimamente, tão sem expectativas. O que tem faltado, até o presente momento, é uma maior harmonização desses esforços, bem como uma estratégia melhor definida para nortear o conjunto dessas ações."

Urani mesmo tem procurado meios de articular idéias e propostas para superar as dificuldades apontadas por ele. Em maio deste ano, por exemplo, ele sugeriu criar um cartão eletrônico nos moldes do Bolsa Família, do governo federal. Durante o colóquio, Urani explicou que se poderia destinar uma soma considerável de recursos - da ordem de 60 milhões de reais ao ano - para financiar as necessidades sociais e de desenvolvimento dos jovens. Esse valor refere-se a cerca de 500 reais por mês, per capita, num universo de 9 000 jovens do Rio, já selecionados como beneficiários do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, do Governo Federal. "A idéia é gastar os recursos em equipamentos sociais para os jovens e outras comunidades, para financiar a mobilidade, para financiar a circulação, para financiar este tipo de coisa que está se discutindo aqui".

Os 500 reais seriam depositados numa conta do próprio jovem - e não da mãe dele, como no caso do Bolsa-Família - e, em contrapartida se exigiria dos jovens uma série de iniciativas. Estar matriculado no ensino médio seria uma contrapartida crucial, segundo Urani. Não ter reprovações, seria outra.

"O que se busca" disse o economista, "é estimular os adolescentes das comunidades pobres do Rio de Janeiro a abandonarem a ociosidade, incentivando o ensino médio e outras formas de acúmulo de capital humano, seja no campo educacional, cultural e/ou esportivo". Ao mesmo tempo, "se estimularia a prática de atividades que sejam úteis para a qualidade de vida de suas comunidades, bem como uma maior circulação pela cidade como um todo. Espera-se, com isso, contribuir para uma maior racionalização das políticas públicas e à formação de cidadãos mais produtivos e com maior capacidade de exercitar plenamente sua cidadania".


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