Na entrevista a seguir, os assistentes sociais Rodrigo
Salgueiro e Pedro Veiga falam mais sobre o que pensam dos jovens cariocas, da
Política de Juventude da cidade do Rio de Janeiro e dos
programas desenvolvidos na capital para meninos e meninas dessa faixa etária.
Tanto Rodrigo, quanto Pedro trabalham na Secretaria Municipal de Assistência Social
do Rio de Janeiro, uma das parceiras do Programa Jovens Urbanos, que desde o começo do ano desenvolve a sua primeira edição no Rio. Leia a
entrevista na íntegra.
E&P - O Programa Jovens Urbanos é
parceiro da Secretaria Municipal de Assistência Social e está
dentro do núcleo de Direitos Humanos da Prefeitura, ao
contrário dos outros projetos com juventude. Por que?
Rodrigo
Salgueiro - No núcleo de Direitos Humanos, trabalhamos
com a proteção especial, e não a proteção
básica. A especial é dada para as pessoas que já
estão em situação de extrema vulnerabilidade e a
básica é para evitar que as pessoas cheguem a esse
extremo. Nós estamos em uma situação complicada
de Segurança Pública aqui no Rio de Janeiro e o núcleo
de Direitos Humanos trabalha com prevenção a violência.
Além da parceria com os Jovens Urbanos, nós temos
projetos especiais voltados para segmentos marginalizados da
sociedade, como presidiários e ex-presidiários,
travestis, população de rua.
A violência urbana do Rio de Janeiro está
diretamente ligada à questão do tráfico de
drogas, que está ligado diretamente à juventude, tanto
a consumidora, quanto a que é mobilizada pela criminalidade.
São os jovens que estão mais à mercê dessa
violência, porque são os que morrem mais e os que matam
mais. Quem está no meio desse conflito é a juventude.
Nós percebemos que aqui na cidade foi
disseminada uma cultura do crime. Os jovens que não estão
ligados a essas facções acabam assumindo uma identidade
quase criminosa. Eles pertencem a certa comunidade que está
dominada por um determinado comando e eles carregam esse estigma.
Vivem o dia-a-dia dessa comunidade, não cometem nenhum tipo de
delito, mas vestem a camisa da facção como se ela fosse
um time de futebol. "Aqui é Comando Vermelho!" ou "Aqui
é Terceiro Comando!".
Essa é uma violência imposta por um
grupo menor que dominou a comunidade. Você diz que tal
comunidade é do Comando Vermelho, por exemplo, mas ela não
é. Ela está sob o domínio de um grupo de
criminosos ligados a uma facção criminosa. Os mais
velhos não costumam adotar essa identidade. Um homem de
quarenta anos não tem o discurso que o jovem tem. Ele tem a
visão de que seu lugar está sob domínio de
determinada facção e de que há rivalidade, mas
ele não é parte executante dessa rivalidade. A
juventude acaba sendo. Então o menino vai para o baile, para o
Maraca
nã e sabe que lá estará um grupo rival.
Houve um caso muito simbólico: o presidente Lula esteve no
Maracanã para lançar um Programa relacionado aos Jogos
Panamericanos e convidou para a cerimônia diversos grupos de
jovens de todas as regiões do Rio de Janeiro. Aconteceram
rixas durante todo o evento por causa de facções rivais
e não eram jovens criminosos.
E&P
- Além dos comandos, existem as milícias que também
dominam algumas comunidades. Como a juventude se relaciona com esses
grupos?
Rodrigo
Salgueiro - As milícias também são facções
criminosas que não mobilizam jovens para o crime, mas suas
ações são contra a juventude criminosa. As
milícias vão, teoricamente, de forma ilegal e violenta
combater a criminalidade, mas cometendo crimes. Os alvos são a
juventude.
E&P
- Desde quando existe essa situação no Rio de Janeiro?
Pedro
Veiga - De dez anos para cá existe um crescimento grande
da questão da violência na cidade. Já existiram
momentos de combate, mas pontuais. Não se acabou com o
problema.
E&P
- E as fronteiras estabelecidas pelos comandos que não
permitem que as pessoas circulem?
Rodrigo
Salgueiro - Cresce de acordo com a divisão do tráfico.
Até o presente momento não houve um enfrentamento
eficaz. São sempre movimentos que partem do governo, mas é
enfrentamento militar, com polícia, exército, mas não
percebemos uma diminuição da violência, pelo
contrário. Com tudo isso, a juventude mais vulnerável é
aquela que vive nas favelas cariocas.
E&P
- Por ser massa de manobra?
Pedro
Veiga - Não apenas isso, mas é a que fica sem
nenhuma perspectiva. Uma pessoa que tem hoje 40 anos não foi
massacrada pela violência desses últimos 10 anos. Há
10 anos ela já estava no mercado de trabalho, é uma
geração mais encaminhada do que as pessoas de 18 a 25
anos, por exemplo. Essas cresceram no extremo da violência.
Acho
que o principal problema para a juventude carioca é a perda de
perspectivas. Hoje há um enclausuramento muito maior desses
jovens na comunidade. Você vai à Rocinha que é
uma favela totalmente urbanizada, com casas, ruas, e existem jovens
que não saem de lá há oito meses. Que moram ali
e nunca foram na praia e há uma praia a seiscentos metros.
Então existe um impedimento da circulação dos
jovens que as gerações anteriores não passaram.
Isso tudo é muito massacrante em termos de horizonte, de
territorialidade.
Rodrigo
Salgueiro - E tem outras questões. Por exemplo, entre
2001 e 2002, eu trabalhei em dois projetos no Complexo do Alemão.
Um desses projetos era para aumentar a escolaridade de jovens e
adultos. Nessa época, eu trabalhava das seis da tarde às
dez da noite, então pegava aquele horário mais
complicado no Alemão.
E&P
- Como era a sua circulação por lá?
Rodrigo
Salgueiro - Tranqüila. As pessoas acabam se conhecendo e
conhecendo a rotina da comunidade. Tirando fatos isolados e momentos
complicados, você entra e sai, trabalha sem ninguém te
incomodar. Nesses últimos três meses é que a
circulação está mais complicada.
Mas
o que eu ia dizer é que conheci o baile funk da Favela da
Grota, que ficou famosa pela morte do Tim Lopes e a feira de drogas.
Durante esse período eu freqüentava a Grota e assisti
algumas feiras acontecendo nos bailes funks. Fiquei chocado porque é
uma realidade completamente diferente e as pessoas da classe média
não conseguem imaginar que isso existe. O baile é
gratuito, no centro da comunidade. Não é feito em um
lugar reservado, exclusivo para o evento, fechado por um muro, atrás
de alguma coisa. Toda comunidade vê. As feiras de drogas
acontecem durante o baile. É cinco, é dez, é
quinze, é vinte reais. As pessoas consumindo por ali mesmo,
enquanto as crianças brincam. Homens armados até os
dentes. A perspectiva da violência não é bem essa
de tomar um tiro a qualquer momento, mas a da miséria, da vida
difícil.
Há também um show de striptease
feito por prostitutas que se despem, chamam os jovens para jogos
sexuais no meio do baile e depois andam pelas ruas, completamente
nuas, onde passam crianças. Tudo completamente diferente ao
mostrado no glamour das novelas, que mostram possibilidades e
dinheiro. Mas a vida não é assim na comunidade e as
pessoas crescem no meio daquela situação de morte,
prisão, revólveres. São essas as referências
que ela tem na vida. Vê o pai e a mãe trabalhando,
ganhando uma miséria e o outro lado completamente impossível
de ser acessado.
E&P
- Qual é a perspectiva do jovem que entra para o crime?
Pedro
Veiga - A perspectiva do jovem que entra na criminalidade é
morrer jovem, tendo vivido intensamente. A ideologia do risco que
contamina o jovem, porque ele cresce vendo esse contraste. Aí
ele imagina que o futuro dele não vale nada hoje. Existe uma
série de funks e raps que exaltam isso. "Cheguei aos 27 anos
e sou herói".
Rodrigo
Salgueiro - "Vou viver poucos anos, porém sinceros",
pensa o jovem. Anos que serão vivos ao extremo porque ele não
quer viver até os 60 como o pai, que continua pobre, mas se
cansa de trabalhar. Essa perspectiva sai da violência e entra
na perspectiva social. O espelho social também não é
encorajador. As possibilidades não são tão
interessantes para que ele enfrente as possibilidades que o crime dá.
Quando
eu era adolescente, atuava em projetos sociais que tinham muitos
discursos: o dos direitos humanos, da cidadania. Nós dizíamos:
"cuidado com o tráfico porque é fácil para
entrar, mas difícil para sair". O Programa Jovens Urbanos é
interessante porque se utiliza da linguagem dos jovens, o que eles
gostam. Propõe coisas novas que dão certo.
E&P
- Como vocês fazem para superar as fronteiras na implantação
dos projetos?
Rodrigo
Salgueiro - Nós, na Prefeitura, temos por exemplo, na zona
portuária, um galpão para desenvolver o projeto Talento
da Vez. Ele é fora do espaço de uma comunidade
específica e supera o conceito de territorialidade. Um espaço
gigantesco, com oficinas de canto, de dança, de teatro, de
circo, oficinas de costura, de móveis, de marcenaria. Todos os
jovens de todas as comunidades vão.
E&P
- É um território neutro...
Rodrigo
Salgueiro - A questão das fronteiras é muito
enraizada, mas quando eles começam a participar dessas
atividades, eles passam a ter outra perspectiva a partir do que eles
vão aprendendo.
Pedro
Veiga - No Pró-Jovem, projeto que nós
desenvolvemos na Prefeitura do Rio de Janeiro, o que tem mudado é
esse caráter de horizonte. Nós trazemos o jovem para
fora da comunidade e mostramos que existem outras coisas. É um
discurso difícil de fazer porque ele pode entender que o que
tem na comunidade dele não é bom. Mas não é
isso. Nós queremos mostrar que ao lado da comunidade existe
outra, e que ao lado tem outra, depois tem um bairro, um outro bairro
e toda uma cidade, um estado, um País e um continente. Que
existe algo mais e que talvez ele queira fazer esse algo dentro da
comunidade dele.
É
uma questão de caracterização da juventude. Que
juventude que a gente quer trabalhar? Jovens que tem a capacidade de
enxergar algo maior. Os Jovens Urbanos também tem um pouco
dessa perspectiva. O jovem está cansado de falar só da
violência, de DST, do tráfico. Ele quer falar de cinema,
de música, de cultura, de dança. O que se percebe é
que o jovem hoje traz outras pautas.
E&P
- E como eles trabalham essas pautas dentro da comunidade deles? Como
fazer cinema na Maré, por exemplo?
Pedro
Veiga - A informação está aí. Na
Maré mesmo existem vários pontos de internet, vários
projetos acontecendo. E os jovens sempre arranjam um jeito, fazem do
jeito deles. Puxam um gato dali, uma gambiarra daqui, mas a coisa
acontece. Quando a gente chega na comunidade e diz: "Hoje vamos ter
uma palestra sobre o que são doenças sexualmente
transmissíveis" e o menino responde: "quer que eu te dê
essa aula?"
Planejamento
familiar, DST, nada disso está mais na pauta do jovem. Se nós
não construirmos uma pauta junto com ele, ficaremos em um
discurso vazio. De querer levar um assunto que eles já sabem
décor. DST não é mais assunto para o jovem
porque é assunto de todos. Virou epidemia há muitos
anos. Nós não podemos deixar de falar de DST, de
violência porque esses temas arrebatam a juventude. Nem de
cidadania. Mas como falar? E deixando os rótulos de lado? O
jovem quer ouvir Caetano Veloso, quer ver cinema. E a gente tem que
aprender a levar esses assuntos da maneira que ele queira ouvir e
também queira falar.
E&P
- Quais são os rótulos que carregam esses jovens da
comunidade?
Pedro
Veiga - Por exemplo, fizemos duas festas de fechamento do
Pró-Jovem no Circo Voador. Havia muita preocupação
de como colocar esses jovens lá, como ficaria a segurança
do público, dos educadores, dos organizadores. Justamente pela
rixa entre as comunidades. Não ocorreu um incidente. Se fosse
uma festa de classe média, teríamos tido pelo menos
quatro ou cinco brigas. Cada festa tinha mais de 2 mil jovens.
E&P
- E por que você acha que nada aconteceu, ao contrário
da festa em que foi o Presidente Lula no Maracanã?
Pedro
Veiga - Por conta das perspectivas que esse jovem que faz um
projeto tem. Nós tivemos apresentações
construídas pelos jovens de temas que eles mesmos escolheram.
Houve uma apresentação sobre a história da
favela. Eu fiquei muito temeroso por ser uma coisa para baixo, por só
abordar essa questão da violência, mas a história
era sobre o samba dentro do morro, o envolvimento da comunidade nessa
história. Claro que em certo momento apareceu um personagem
que era o traficante, mas isso faz parte da realidade deles. Mas a
temática não foi essa. E não fomos nós
que colocamos o tema, eles que trouxeram. O papel das políticas
é dar norte, mostrar por onde caminhar, mas não fazer
por eles como é a política assistencialista que
sobreviveu por muitos anos.
Rodrigo
Salgueiro - É só a partir do que o jovem coloca
que conseguimos construir estratégias para trabalhar
determinados costumes e superar certas situações.
E&P - Como é que a Secretaria de Assistência
Social conversa com as outras Secretarias?
Pedro
Veiga - Existe uma função macro de políticas
publicas setoriais que é da Secretaria de Assistência
Social, coordenada pelo secretário Marcelo Garcia e por um
interlocutor para articularem e reuniões e ações
conjuntas, além de vínculos diretos e programas de
algumas políticas. O Pró-Jovem, por exemplo, estabelece
um vínculo forte com as Secretarias de Educação,
Esportes e Cultura.
O que nos buscamos é criar parcerias que
potencializem o Programa. A Secretaria mapeia os territórios e
vê o que está disponível para a população,
seja de projetos e programas, ou de serviços.
Rodrigo
Salgueiro - Nós adaptamos nossas políticas com o
que é orientado pela Política Nacional de Assistência
Social e pelo Sistema Único de Assistência Social.
Paralelo a isso nós temos os períodos de vigência
dos projetos e alguma hora isso vai acabar. É aí que
entra o poder público também. O projeto não é
um meio exclusivo. Existem 480 jovens que participam e outros milhões
que não. É um desafio nosso aumentar o acesso a rede.
E&P
- Qual é o caminho que as políticas públicas
percorrem para chegar ao jovem?
Pedro
Veiga - No Pró-Jovem, por exemplo, nós partimos
de um diagnóstico nacional da juventude. E constatamos que
existia uma dívida enorme do Governo com esses jovens, que
hoje estão na faixa de 18 a 24 anos. Então elaboramos
uma política para combater esse problema. Na implementação
a rede será indispensável.
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