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Juventude : O poder público e a juventude carioca
em 24/10/2007 (3575 leituras)

Na entrevista a seguir, os assistentes sociais Rodrigo Salgueiro e Pedro Veiga falam mais sobre o que pensam dos jovens cariocas, da Política de Juventude da cidade do Rio de Janeiro e dos programas desenvolvidos na capital para meninos e meninas dessa faixa etária.

Tanto Rodrigo, quanto Pedro trabalham na Secretaria Municipal de Assistência Social do Rio de Janeiro, uma das parceiras do Programa Jovens Urbanos, que desde o começo do ano desenvolve a sua primeira edição no Rio. Leia a entrevista na íntegra.



E&P - O Programa Jovens Urbanos é parceiro da Secretaria Municipal de Assistência Social e está dentro do núcleo de Direitos Humanos da Prefeitura, ao contrário dos outros projetos com juventude. Por que?

Rodrigo Salgueiro - No núcleo de Direitos Humanos, trabalhamos com a proteção especial, e não a proteção básica. A especial é dada para as pessoas que já estão em situação de extrema vulnerabilidade e a básica é para evitar que as pessoas cheguem a esse extremo. Nós estamos em uma situação complicada de Segurança Pública aqui no Rio de Janeiro e o núcleo de Direitos Humanos trabalha com prevenção a violência. Além da parceria com os Jovens Urbanos, nós temos projetos especiais voltados para segmentos marginalizados da sociedade, como presidiários e ex-presidiários, travestis, população de rua.

A violência urbana do Rio de Janeiro está diretamente ligada à questão do tráfico de drogas, que está ligado diretamente à juventude, tanto a consumidora, quanto a que é mobilizada pela criminalidade. São os jovens que estão mais à mercê dessa violência, porque são os que morrem mais e os que matam mais. Quem está no meio desse conflito é a juventude.

Nós percebemos que aqui na cidade foi disseminada uma cultura do crime. Os jovens que não estão ligados a essas facções acabam assumindo uma identidade quase criminosa. Eles pertencem a certa comunidade que está dominada por um determinado comando e eles carregam esse estigma. Vivem o dia-a-dia dessa comunidade, não cometem nenhum tipo de delito, mas vestem a camisa da facção como se ela fosse um time de futebol. "Aqui é Comando Vermelho!" ou "Aqui é Terceiro Comando!".

Essa é uma violência imposta por um grupo menor que dominou a comunidade. Você diz que tal comunidade é do Comando Vermelho, por exemplo, mas ela não é. Ela está sob o domínio de um grupo de criminosos ligados a uma facção criminosa. Os mais velhos não costumam adotar essa identidade. Um homem de quarenta anos não tem o discurso que o jovem tem. Ele tem a visão de que seu lugar está sob domínio de determinada facção e de que há rivalidade, mas ele não é parte executante dessa rivalidade. A juventude acaba sendo. Então o menino vai para o baile, para o MaracaJovem caminha pela favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Jovens Urbanosnã e sabe que lá estará um grupo rival. Houve um caso muito simbólico: o presidente Lula esteve no Maracanã para lançar um Programa relacionado aos Jogos Panamericanos e convidou para a cerimônia diversos grupos de jovens de todas as regiões do Rio de Janeiro. Aconteceram rixas durante todo o evento por causa de facções rivais e não eram jovens criminosos.

E&P - Além dos comandos, existem as milícias que também dominam algumas comunidades. Como a juventude se relaciona com esses grupos?

Rodrigo Salgueiro
- As milícias também são facções criminosas que não mobilizam jovens para o crime, mas suas ações são contra a juventude criminosa. As milícias vão, teoricamente, de forma ilegal e violenta combater a criminalidade, mas cometendo crimes. Os alvos são a juventude.

E&P - Desde quando existe essa situação no Rio de Janeiro?

Pedro Veiga
- De dez anos para cá existe um crescimento grande da questão da violência na cidade. Já existiram momentos de combate, mas pontuais. Não se acabou com o problema.

E&P - E as fronteiras estabelecidas pelos comandos que não permitem que as pessoas circulem?

Rodrigo Salgueiro
- Cresce de acordo com a divisão do tráfico. Até o presente momento não houve um enfrentamento eficaz. São sempre movimentos que partem do governo, mas é enfrentamento militar, com polícia, exército, mas não percebemos uma diminuição da violência, pelo contrário. Com tudo isso, a juventude mais vulnerável é aquela que vive nas favelas cariocas.

E&P - Por ser massa de manobra?

Pedro Veiga
- Não apenas isso, mas é a que fica sem nenhuma perspectiva. Uma pessoa que tem hoje 40 anos não foi massacrada pela violência desses últimos 10 anos. Há 10 anos ela já estava no mercado de trabalho, é uma geração mais encaminhada do que as pessoas de 18 a 25 anos, por exemplo. Essas cresceram no extremo da violência.

Acho que o principal problema para a juventude carioca é a perda de perspectivas. Hoje há um enclausuramento muito maior desses jovens na comunidade. Você vai à Rocinha que é uma favela totalmente urbanizada, com casas, ruas, e existem jovens que não saem de lá há oito meses. Que moram ali e nunca foram na praia e há uma praia a seiscentos metros. Então existe um impedimento da circulação dos jovens que as gerações anteriores não passaram. Isso tudo é muito massacrante em termos de horizonte, de territorialidade.

Rodrigo Salgueiro
- E tem outras questões. Por exemplo, entre 2001 e 2002, eu trabalhei em dois projetos no Complexo do Alemão. Um desses projetos era para aumentar a escolaridade de jovens e adultos. Nessa época, eu trabalhava das seis da tarde às dez da noite, então pegava aquele horário mais complicado no Alemão.

 
E&P - Como era a sua circulação por lá?

Rodrigo Salgueiro
- Tranqüila. As pessoas acabam se conhecendo e conhecendo a rotina da comunidade. Tirando fatos isolados e momentos complicados, você entra e sai, trabalha sem ninguém te incomodar. Nesses últimos três meses é que a circulação está mais complicada.

Mas o que eu ia dizer é que conheci o baile funk da Favela da Grota, que ficou famosa pela morte do Tim Lopes e a feira de drogas. Durante esse período eu freqüentava a Grota e assisti algumas feiras acontecendo nos bailes funks. Fiquei chocado porque é uma realidade completamente diferente e as pessoas da classe média não conseguem imaginar que isso existe. O baile é gratuito, no centro da comunidade. Não é feito em um lugar reservado, exclusivo para o evento, fechado por um muro, atrás de alguma co
isa. Toda comunidade vê. As feiras de drogas acontecem durante o baile. É cinco, é dez, é quinze, é vinte reais. As pessoas consumindo por ali mesmo, enquanto as crianças brincam. Homens armados até os dentes. A perspectiva da violência não é bem essa de tomar um tiro a qualquer momento, mas a da miséria, da vida difícil.

Há também um show de striptease feito por prostitutas que se despem, chamam os jovens para jogos sexuais no meio do baile e depois andam pelas ruas, completamente nuas, onde passam crianças. Tudo completamente diferente ao mostrado no glamour das novelas, que mostram possibilidades e dinheiro. Mas a vida não é assim na comunidade e as pessoas crescem no meio daquela situação de morte, prisão, revólveres. São essas as referências que ela tem na vida. Vê o pai e a mãe trabalhando, ganhando uma miséria e o outro lado completamente impossível de ser acessado.

E&P - Qual é a perspectiva do jovem que entra para o crime?

Pedro Veiga
- A perspectiva do jovem que entra na criminalidade é morrer jovem, tendo vivido intensamente. A ideologia do risco que contamina o jovem, porque ele cresce vendo esse contraste. Aí ele imagina que o futuro dele não vale nada hoje. Existe uma série de funks e raps que exaltam isso. "Cheguei aos 27 anos e sou herói".

Rodrigo Salgueiro
- "Vou viver poucos anos, porém sinceros", pensa o jovem. Anos que serão vivos ao extremo porque ele não quer viver até os 60 como o pai, que continua pobre, mas se cansa de trabalhar. Essa perspectiva sai da violência e entra na perspectiva social. O espelho social também não é encorajador. As possibilidades não são tão interessantes para que ele enfrente as possibilidades que o crime dá.

Quando eu era adolescente, atuava em projetos sociais que tinham muitos discursos: o dos direitos humanos, da cidadania. Nós dizíamos: "cuidado com o tráfico porque é fácil para entrar, mas difícil para sair". O Programa Jovens Urbanos é interessante porque se utiliza da linguagem dos jovens, o que eles gostam. Propõe coisas novas que dão certo.

E&P - Como vocês fazem para superar as fronteiras na implantação dos projetos?

Rodrigo Salgueiro -
Nós, na Prefeitura, temos por exemplo, na zona portuária, um galpão para desenvolver o projeto Talento da Vez. Ele é fora do espaço de uma comunidade específica e supera o conceito de territorialidade. Um espaço gigantesco, com oficinas de canto, de dança, de teatro, de circo, oficinas de costura, de móveis, de marcenaria. Todos os jovens de todas as comunidades vão.

E&P - É um território neutro...

Rodrigo Salgueiro
- A questão das fronteiras é muito enraizada, mas quando eles começam a participar dessas atividades, eles passam a ter outra perspectiva a partir do que eles vão aprendendo.

Pedro Veiga
- No Pró-Jovem, projeto que nós desenvolvemos na Prefeitura do Rio de Janeiro, o que tem mudado é esse caráter de horizonte. Nós trazemos o jovem para fora da comunidade e mostramos que existem outras coisas. É um discurso difícil de fazer porque ele pode entender que o que tem na comunidade dele não é bom. Mas não é isso. Nós queremos mostrar que ao lado da comunidade existe outra, e que ao lado tem outra, depois tem um bairro, um outro bairro e toda uma cidade, um estado, um País e um continente. Que existe algo mais e que talvez ele queira fazer esse algo dentro da comunidade dele.

É uma questão de caracterização da juventude. Que juventude que a gente quer trabalhar? Jovens que tem a capacidade de enxergar algo maior. Os Jovens Urbanos também tem um pouco dessa perspectiva. O jovem está cansado de falar só da violência, de DST, do tráfico. Ele quer falar de cinema, de música, de cultura, de dança. O que se percebe é que o jovem hoje traz outras pautas.

E&P - E como eles trabalham essas pautas dentro da comunidade deles? Como fazer cinema na Maré, por exemplo?

Pedro Veiga
- A informação está aí. Na Maré mesmo existem vários pontos de internet, vários projetos acontecendo. E os jovens sempre arranjam um jeito, fazem do jeito deles. Puxam um gato dali, uma gambiarra daqui, mas a coisa acontece. Quando a gente chega na comunidade e diz: "Hoje vamos ter uma palestra sobre o que são doenças sexualmente transmissíveis" e o menino responde: "quer que eu te dê essa aula?"

Planejamento familiar, DST, nada disso está mais na pauta do jovem. Se nós não construirmos uma pauta junto com ele, ficaremos em um discurso vazio. De querer levar um assunto que eles já sabem décor. DST não é mais assunto para o jovem porque é assunto de todos. Virou epidemia há muitos anos. Nós não podemos deixar de falar de DST, de violência porque esses temas arrebatam a juventude. Nem de cidadania. Mas como falar? E deixando os rótulos de lado? O jovem quer ouvir Caetano Veloso, quer ver cinema. E a gente tem que aprender a levar esses assuntos da maneira que ele queira ouvir e também queira falar.

E&P - Quais são os rótulos que carregam esses jovens da comunidade?

Pedro Veiga
- Por exemplo, fizemos duas festas de fechamento do Pró-Jovem no Circo Voador. Havia muita preocupação de como colocar esses jovens lá, como ficaria a segurança do público, dos educadores, dos organizadores. Justamente pela rixa entre as comunidades. Não ocorreu um incidente. Se fosse uma festa de classe média, teríamos tido pelo menos quatro ou cinco brigas. Cada festa tinha mais de 2 mil jovens.

E&P - E por que você acha que nada aconteceu, ao contrário da festa em que foi o Presidente Lula no Maracanã?

Pedro Veiga
- Por conta das perspectivas que esse jovem que faz um projeto tem. Nós tivemos apresentações construídas pelos jovens de temas que eles mesmos escolheram. Houve uma apresentação sobre a história da favela. Eu fiquei muito temeroso por ser uma coisa para baixo, por só abordar essa questão da violência, mas a história era sobre o samba dentro do morro, o envolvimento da comunidade nessa história. Claro que em certo momento apareceu um personagem que era o traficante, mas isso faz parte da realidade deles. Mas a temática não foi essa. E não fomos nós que colocamos o tema, eles que trouxeram. O papel das políticas é dar norte, mostrar por onde caminhar, mas não fazer por eles como é a política assistencialista que sobreviveu por muitos anos.

Rodrigo Salgueiro
- É só a partir do que o jovem coloca que conseguimos construir estratégias para trabalhar determinados costumes e superar certas situações.

E&P - Como é que a Secretaria de Assistência Social conversa com as outras Secretarias?

Pedro Veiga
- Existe uma função macro de políticas publicas setoriais que é da Secretaria de Assistência Social, coordenada pelo secretário Marcelo Garcia e por um interlocutor para articularem e reuniões e ações conjuntas, além de vínculos diretos e programas de algumas políticas. O Pró-Jovem, por exemplo, estabelece um vínculo forte com as Secretarias de Educação, Esportes e Cultura.

O que nos buscamos é criar parcerias que potencializem o Programa. A Secretaria mapeia os territórios e vê o que está disponível para a população, seja de projetos e programas, ou de serviços.

Rodrigo Salgueiro
- Nós adaptamos nossas políticas com o que é orientado pela Política Nacional de Assistência Social e pelo Sistema Único de Assistência Social. Paralelo a isso nós temos os períodos de vigência dos projetos e alguma hora isso vai acabar. É aí que entra o poder público também. O projeto não é um meio exclusivo. Existem 480 jovens que participam e outros milhões que não. É um desafio nosso aumentar o acesso a rede.

E&P - Qual é o caminho que as políticas públicas percorrem para chegar ao jovem?

Pedro Veiga
- No Pró-Jovem, por exemplo, nós partimos de um diagnóstico nacional da juventude. E constatamos que existia uma dívida enorme do Governo com esses jovens, que hoje estão na faixa de 18 a 24 anos. Então elaboramos uma política para combater esse problema. Na implementação a rede será indispensável.


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