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Juventude : O Programa Jovens Urbanos
em 18/10/2005 (1399 leituras)

Leonor Macedo

Quando a Fundação Itaú Social mostrou sua vontade de trabalhar com jovens de 16 a 24 anos, o Cenpec aceitou o desafio de elaborar um projeto para essa faixa etária, mesmo não sendo a especialidade da ONG que nunca havia desenvolvido um trabalho tão grande para esse público.
"Aceitamos o desafio, mas congregamos mais pessoas. Este é um princípio do Cenpec: qualquer desafio relacionado à área de educação tem que ser compartilhado com o poder público", explica a assessora da equipe Educação e Comunidade, Ivana Boal. Foi desenhado o primeiro esboço do programa de um projeto de formação para jovens e ficou decidido que seria uma implementação experimental na cidade de São Paulo.
"O Cenpec e a Fundação Itaú Social partilham da prática interessante que refuta a idéia de chamar parceiros com uma proposta fechada onde não cabe o outro, nem suas idéias. Começamos a ver que isso não dava certo. Para propor parceria, o projeto tem de estar incompleto, tem de faltar alguma coisa onde caibFachada da ACTI pintada pelos jovens urbanos. Foto: Leonor Macedoa a idéia do outro", conta Ivana.
A partir desse pressuposto, os instituidores começaram a chamar os parceiros: Secretaria Estadual e Municipal de Desenvolvimento e Ação Social de São Paulo; outra fundação empresarial, o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE); outra ONG, o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC), que ficou responsável pelo monitoramento da edição experimental.
O próximo passo foi decidir os lugares de São Paulo onde seria implantado o programa. A Brasilândia, Zona Norte, e o Campo Limpo, Zona Sul, foram escolhidos pelos altos índices de vulnerabilidade juvenil. As diferenças entre as duas regiões foram levadas em consideração e o Programa Jovens Urbanos foi pensado de forma a experimentar uma metodologia que pudesse ser replicada em qualquer contexto.
"A formação dos jovens deveria ser realizada por organizações que constituem e são constituintes de seus territórios. Em outras palavras, elas impactam e são impactadas por esses territórios. Decorrente disto, ao pensar uma formação de jovens que tem como objetivo o exercício da cidadania, é imprescindível a participação das organizações que expressam as dinâmicas e os modos de vida de seus territórios", contextualiza Ivana.
A primeira edição trabalhou com dez ONGs locais: Associação de Moradores Jd. Rosana, Serviço Social Bom Jesus, Associação Comunitária Todos Irmãos, Projeto Casulo, Ação Comunitária do Brasil/Associação Beneficente Provisão, Associação Cultural e Desportiva Bandeirantes, Associação Comunitária Monte Azul, Creche Nova Esperança Amigos de Pianoro, Associação de Moradores Vale Verde e Turma da Touca Associação Cultural, Recreativa e Social.
Além das dez organizações não-governamentais locais, para desenvolver um Programa desse porte foram necessárias outras parcerias. A Embrapa e a Sabesp, por exemplo, foram parceiras na primeira edição e estarão com as formações tecnológicas na segunda edição, prevista para iniciar as atividades em dezembro de 2005.
Em outubro e novembro estão sendo selecionados as ONGs e os jovens que participarão da próxima edição do Jovens Urbanos. Continuará a ser realizada na Brasilândia e Campo Limpo.
Para o jovem, tecnologia
O evento no Morro Piolho era o produto final da primeira edição do Jovens Urbanos que envolveu, a princípio, 480 jovens na faixa de 16 a 24 anos, de Campo Limpo e Brasilândia.
Desde maio de 2004, esses jovens receberam 10 meses de formação e uma bolsa-auxílio de R$ 60,00 mensais, dada pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, uma das parcerias do Programa.
"O Jovens Urbanos tem quatro diferenciais em relação aos outros projetos desenvolvidos para jovens: o uso de tecnologias, a ampliação do repertório cultural, a apropriação dos espaços da cidade e o aproveitamento dos potenciais dos jovens para produzir", explica o coordenador do Jovens Urbanos, Wagner dos Santos.
Mas dentre os diferenciais é a apropriação da tecnologia que se destaca. Nas formações, os jovens aprenderam tecnologias da arte (som, imagem, moda), de intervenção urbana (revitalização e intervenção em espaços públicos, estética urbana) e de recursos naturais e renováveis (intervenção no meio ambiente com reciclagem, horta e racionalização do consumo).
"Se a ciência conceitua, a tecnologia se apropria desses conceitos, os traduz em instrumentos para a transformação do mundo das pessoas e, a partir do momento que isso acontece, ele cria novos problemas para a ciência", conta Wagner.
"As tecnologias apropriadas têm duas dimensões: criar canais para os jovens conhecerem seus significados e depois de conhecerem, aprenderem e tomarem posse desse conhecimento", garante o pesquisador Edson Martins, que trabalha no Jovens Urbanos desde sua concepção. A partir do manejo dessa tecnologia, os jovens criam novas saídas.
Na segunda edição do Programa, por exemplo, um dos parceiros é a TV Cultura e os jovens aprenderão a manejar todos os equipamentos disponíveis para qualquer funcionário da rede de televisão. "Depois de aprender, o jovem terá de levar esse conhecimento para implantar um projeto na comunidade dele. Só que lá ele não tem acesso a esses recursos, por isso precisará adaptar esse conhecimento para sua realidade", diz Edson. Para essa próxima edição do Jovens Urbanos também está previsto trabalhar com os jovens a tecnologia de serviços (turismo urbano, gastronomia, hotelaria).
Além do objetivo maior do Programa que é fortalecer os sujeitos que atuam nos territórios onde os projetos atuam, com a proposição de que o jovem seja o vetor desse desenvolvimento, o Jovens Urbanos quer conquistar alguns objetivos específicos, como aumentar a escolaridade desses jovens; desenvolver competências e habilidades básicas para a vida pública e pessoal; realizar projetos de melhoria da qualidade de vida via tecnologias apropriadas; ampliar o repertório artístico, esportivo, tecnológico e social dos jovens; inseri-los em um conjunto de experiências grupais que proporcionam oportunidades de convivência com as diferenças; permitir um conhecimento multifacetado das diversidades dos espaços da sua comunidade; mobilizar e depurar a curiosidade dos jovens pelas formas e percursos da construção dos conhecimentos da ciência e facilitar a interação dos jovens com outros agentes.
Para Regina Alves, coordenadora da organização não-governamental Serviço Social Bom Jesus, uma das participantes do Jovens Urbanos, o Programa trouxe a proposta inovadora de estimular o pertencimento dos jovens em seu micro-território. "No Capão Redondo, onde está nossa ONG, as pessoas não têm muito acesso a cultura, educação, lazer, saúde. O Jovens Urbanos veio ao encontro de uma vontade enorme do jovem de produzir algo e de mostrar para a comunidade o quanto ele é capaz de produzir", explica Regina.
Hoje, quem freqüenta o Programa tem um poder de argumentação muito maior. Nas comunidades onde os jovens do Serviço Social Bom Jesus conseguiram atuar há uma outra concepção de juventude, que antes era vista de forma distorcida. Quando eles tiveram a oportunidade de mostrar do que são capazes, tornaram-se referências na comunidade. "Agora os jovens são sempre chamados nos eventos. Tem o referencial de produção e de quem conhece a comunidade onde estão", garante a coordenadora.
A ONG desenvolveu dois projetos: um vídeo documentário sobre as potencialidades do Capão e a construção de aquecedores solares. Ambos tiveram a participação da comunidade na produção e na realização dos projetos. "Envolvemos desde um grupo de rap do Capão até três jovens poetas, uma do Programa e os outros dois não", conta Regina.
Envolver todo mundo. Comunidade, família, Poder Público, organizações não-governamentais, assessores tecnológicos, jovens. "A idéia é colocar todo mundo para conversar", relata Edson.

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