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Educação e Participação : COLÓQUIO EDUCAÇÃO INTEGRAL: “NADA COMO UMA IDEIA CUJO TEMPO JÁ CHEGOU”
em 08/06/2010 (186 leituras)

Sueli Lima, da Casa da Arte de EducarA percepção de uma crescente mobilização pela implantação da educação integral no País esteve presente na fala de diversos palestrantes que integraram a programação do Colóquio Educação Integral, realizado no dia 1º de junho, em São Paulo. O evento integra as ações de formação da 8ª edição do Prêmio Itaú-Unicef, promovido pela Fundação Itaú Social em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com a coordenação do Cenpec. Representantes das ONGs finalistas e de escolas parceiras assistiram às palestras, no período da manhã, e participaram dos grupos de trabalho, no período da tarde.

Para a representante do Unicef, Júlia Ribeiro, a "educação integral representa uma importante estratégia para romper com o ciclo de pobreza e de desigualdades sociais". Para ilustrar o momento propício que vivemos para implantação da educação integral, citou uma frase do educador Antonio Carlos Gomes da Costa: "Nada como uma ideia cujo tempo já chegou".  Leia mais

Para ver as apresentações dos palestrantes, clique aqui



Na avaliação da diretora de Educação Integral, Direitos Humanos e Cidadania da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, Jaqueline Moll, "estamos vivendo uma convergência de vontades e esforços políticos". O esforço político, no caso, expressa-se no Mais Educação, programa do governo federal, que atua como política indutora da implantação da educação integral, repassando recursos direto para as escolas que adotam esse regime.

Para dar uma mostra do crescimento do programa, Jaqueline apresentou alguns dados: o volume de recursos distribuído pelo Mais Educação saltou de R$ 45 milhões, em 2008, para R$ 400 milhões, em 2010; no mesmo período, o número de escolas atendidas aumentou de 1.380 para 10 mil.

O programa também atua numa perspectiva de política afirmativa, tendo como foco escolas de baixo Ideb, localizadas em regiões de elevada vulnerabilidade social. "É uma ação necessária em um país que sempre tardia e desigualmente distribuiu seus bens", explicou. "Quatro horas de escolaridade é uma vergonha para a potência econômica que o nosso país é", complementou.

Jaqueline reiterou ainda que educação integral implica repensar a forma como o currículo se organiza. "Estamos falando em reinvenção do tempo escolar, em mudança paradigmática (...) Se os professores continuam com o mesmo discurso e os alunos continuam não sendo sujeitos do seu trabalho pedagógico, não será educação integral".

Essa contribuição da educação integral para a formulação de um novo modo de aprender e ensinar também esteve presente na fala de diversos palestrantes, entre eles, Sueli Lima, fundadora da Casa da Arte de Educar, no Rio de Janeiro, instituição vencedora da 8ª edição do Prêmio Itaú-Unicef.

Para a educadora, é preciso retomar a ideia do professor como pesquisador de práticas pedagógicas e a sala de aula como espaço de pesquisa, uma vez que é imprescindível para o exercício da profissão que o docente conheça o contexto em que atua para estabelecer relações com o currículo. "A educação integral passa pela busca de saberes concretos. As ciências nasceram do cotidiano. Nós, professores, precisamos sair da abstração".

Experiências de educação integral

Gestores responsáveis pela implantação de políticas de educação integral integraram a programação do colóquio, relatando os desafios e conquistas da empreitada.

O secretário municipal de Educação de Palmas (TO), Danilo de Melo Souza, falou sobre a criação do Programa Escola em Tempo Integral no município. Um dos pontos que chamaram atenção em seu relato diz respeito ao custo e sustentabilidade do programa. Segundo Danilo, o custo de cada aluno/ano é de R$ 1.985, valor inferior ao repassado pelo Fundeb (R$ 2.300/aluno) - o que permite que essa diferença seja investida em infraestrutura e formação.

Em relação à continuidade do programa, Danilo se mostra confiante em relação a essa questão. "A reeleição do prefeito se deu muito em torno desse tema da educação. Todos os candidatos se comprometeram em continuar [com o programa]. Além disso, as famílias se apropriaram muito [do projeto]. Hoje em cada escola integral que atende em média mil alunos têm outros dois mil querendo entrar". Ainda segundo o secretário, mais de 50% dos alunos são atendidos pelo programa.

A secretária municipal de Educação de Belo Horizonte, Macaé Evaristo, chamou a atenção para a ideia de democratização dos espaços públicos que desempenha papel fundamental em programas de educação integral. "A educação integral nos conclama a ter um novo olhar sobre a cidade, a mudar o olhar das carências para o olhar das potencialidades", destacou. Como exemplo, mencionou a ausência de clubes públicos em Belo Horizonte, o que levou a secretaria a firmar parcerias com clubes privados da cidade.

Jailson Silva, responsável pela universalização do horário integral em Nova IguaçuA criação de um bom plano de cargos e salários para o magistério, a implantação de uma gestão democrática (por meio de conselhos escolares efetivos) e a atribuição às escolas pela definição de seus projetos pedagógicos como mecanismo de responsabilização foram alguns pontos destacados pelo ex-secretário municipal de Educação de Nova Iguaçu (RJ), Jailson de Souza Silva, do programa de educação integral implantado no município durante a sua gestão.

Também enfatizou a importância do trabalho em rede. "A educação integral não pode ser sustentada apenas pela escola. A inserção da criança na rede do bairro é fundamental", pontuou.

O jornalista Gilberto Dimenstein, fundador da ONG Cidade Escola Aprendiz, de São Paulo, fez observações na mesma linha. "Pensar em educação integral é pensar em rede. E para isso não podemos abrir mão das mídias digitais", salientou. Aproveitou a ocasião para divulgar o lançamento do Palco Digital, espécie de rede social que tem como proposta reunir blogs criados por escolas de todo o País que divulguem atrações culturais e educativas gratuitas promovidas em suas comunidades. (Para saber mais sobre a iniciativa, clique aqui)

Questões filosóficas

Questões de cunho mais filosófico relacionadas à educação integral foram abordadas pela professora Dulce Critelli, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pelo professor Lino de Macedo, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Dulce abordou as dimensões do desenvolvimento humano. Embora vivamos em um mundo marcado pela velocidade das mudanças, a professora lembrou a permanência da condição humana. Diante disso, procurou suscitar uma reflexão a respeito de quais aspectos dessa condição a educação deve estar atenta. "A totalidade do homem nunca está só dentro dele. Uma educação integral tem que pensar que o mundo faz parte do homem", observou. Para ela, a educação precisa levar em conta questões que a nossa cultura deixou de lado, como a espontaneidade e a liberdade em favor do controle absoluto das situações.

Pesquisadoras do Cenpec também marcaram presença no colóquio. A gerente de Projetos Nacionais, Maria Estela Bergamin, falou sobre as possibilidades de exploração dos sentidos por meio do trabalho com oficinas na educação integral. Já Raquel Souza, da Coordenação de Documentação e Informação do Cenpec, discorreu sobre os desafios da gestão de programas de educação integral. "A gestão é tanto um compromisso técnico como também político, já que abre espaço para que novos atores se apropriem do conhecimento e seja feito o controle social das políticas públicas".

 

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