A percepção de uma crescente mobilização pela
implantação
da educação integral no País esteve presente na fala de diversos
palestrantes
que integraram a programação do Colóquio Educação Integral, realizado no
dia 1º
de junho, em São Paulo. O evento integra as ações de formação da 8ª
edição do
Prêmio Itaú-Unicef, promovido pela Fundação
Itaú Social em parceria com o Fundo
das Nações Unidas para a Infância (Unicef), com a coordenação do
Cenpec. Representantes
das ONGs finalistas e de escolas parceiras assistiram às palestras, no
período
da manhã, e participaram dos grupos de trabalho, no período da tarde.
Para a representante do Unicef, Júlia Ribeiro, a
"educação integral representa uma importante estratégia para romper com o
ciclo
de pobreza e de desigualdades sociais". Para ilustrar o momento propício
que
vivemos para implantação da educação integral, citou uma frase do educador Antonio Carlos
Gomes
da Costa: "Nada como uma ideia cujo tempo já chegou". Leia mais
Para ver as apresentações dos palestrantes, clique aqui
Na avaliação da diretora de Educação Integral, Direitos
Humanos e Cidadania da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e
Diversidade do MEC, Jaqueline Moll, "estamos vivendo uma convergência de
vontades
e esforços políticos". O esforço político, no caso, expressa-se no Mais
Educação, programa do governo federal, que atua como política
indutora da
implantação da educação integral, repassando recursos direto para as
escolas
que adotam esse regime.
Para dar uma mostra do crescimento do programa,
Jaqueline apresentou alguns dados: o volume de recursos distribuído pelo
Mais
Educação saltou de R$ 45 milhões, em 2008, para R$ 400 milhões, em 2010;
no
mesmo período, o número de escolas atendidas aumentou de 1.380 para 10
mil.
O programa também atua numa perspectiva de política
afirmativa, tendo como foco escolas de baixo Ideb, localizadas em
regiões de elevada
vulnerabilidade social. "É uma ação necessária em um país que sempre
tardia e
desigualmente distribuiu seus bens", explicou. "Quatro horas de
escolaridade é
uma vergonha para a potência econômica que o nosso país é",
complementou.
Jaqueline reiterou ainda que educação integral implica
repensar a forma como o currículo se organiza. "Estamos falando em
reinvenção
do tempo escolar, em mudança paradigmática (...) Se os professores
continuam
com o mesmo discurso e os alunos continuam não sendo sujeitos do seu
trabalho
pedagógico, não será educação integral".
Essa contribuição da educação integral para a
formulação de um novo modo de aprender e ensinar também esteve presente
na fala
de diversos palestrantes, entre eles, Sueli Lima, fundadora da Casa da
Arte de
Educar, no Rio de Janeiro, instituição vencedora da 8ª edição do Prêmio
Itaú-Unicef.
Para a educadora, é preciso retomar a ideia do
professor como pesquisador de práticas pedagógicas e a sala de aula como
espaço
de pesquisa, uma vez que é imprescindível para o exercício da profissão
que o
docente conheça o contexto em que atua para estabelecer relações com o
currículo. "A educação integral passa pela busca de saberes concretos.
As
ciências nasceram do cotidiano. Nós, professores, precisamos sair da
abstração".
Experiências
de educação integral
Gestores responsáveis pela implantação de políticas de
educação integral integraram a programação do colóquio, relatando os
desafios e
conquistas da empreitada.
O secretário municipal de Educação de Palmas (TO),
Danilo de Melo Souza, falou sobre a criação do Programa Escola em Tempo
Integral no município. Um dos pontos que chamaram atenção em seu relato
diz
respeito ao custo e sustentabilidade do programa. Segundo Danilo, o
custo de
cada aluno/ano é de R$ 1.985, valor inferior ao repassado pelo Fundeb
(R$ 2.300/aluno)
- o que permite que essa diferença seja investida em infraestrutura e
formação.
Em relação à continuidade do programa, Danilo se mostra
confiante em relação a essa questão. "A reeleição do prefeito se deu
muito em
torno desse tema da educação. Todos os candidatos se comprometeram em
continuar
[com o programa]. Além disso, as famílias se apropriaram muito [do
projeto]. Hoje
em cada escola integral que atende em média mil alunos têm outros dois
mil
querendo entrar". Ainda segundo o secretário, mais de 50% dos alunos são
atendidos pelo programa.
A secretária municipal de Educação de Belo Horizonte,
Macaé Evaristo, chamou a atenção para a ideia de democratização dos
espaços
públicos que desempenha papel fundamental em programas de educação
integral. "A
educação integral nos conclama a ter um novo olhar sobre a cidade, a
mudar o
olhar das carências para o olhar das potencialidades", destacou. Como
exemplo,
mencionou a ausência de clubes públicos em Belo Horizonte, o que levou a
secretaria a firmar parcerias com clubes privados da cidade.
A criação de um bom
plano de cargos e salários para o
magistério, a implantação de uma gestão democrática (por meio de
conselhos
escolares efetivos) e a atribuição às escolas pela definição de seus
projetos
pedagógicos como mecanismo de responsabilização foram alguns pontos
destacados
pelo ex-secretário municipal de Educação de Nova Iguaçu (RJ), Jailson de
Souza
Silva, do programa de educação integral implantado no município durante a
sua
gestão.
Também enfatizou a importância do trabalho em rede. "A
educação integral não pode ser sustentada apenas pela escola. A inserção
da
criança na rede do bairro é fundamental", pontuou.
O jornalista Gilberto Dimenstein, fundador da ONG
Cidade Escola Aprendiz, de São Paulo, fez observações na mesma
linha. "Pensar
em educação integral é pensar em rede. E para isso não podemos abrir mão
das
mídias digitais", salientou. Aproveitou a ocasião para divulgar o
lançamento do
Palco Digital, espécie de rede social que tem como proposta reunir blogs
criados por escolas de todo o País que divulguem atrações culturais e
educativas gratuitas promovidas em suas comunidades. (Para saber mais
sobre a
iniciativa, clique aqui)
Questões
filosóficas
Questões de cunho mais filosófico relacionadas à educação
integral foram abordadas pela professora Dulce Critelli, da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pelo professor Lino de
Macedo, do
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).
Dulce abordou as dimensões do desenvolvimento humano.
Embora vivamos em um mundo marcado pela velocidade das mudanças, a
professora lembrou
a permanência da condição humana. Diante disso, procurou suscitar uma
reflexão
a respeito de quais aspectos dessa condição a educação deve estar
atenta. "A
totalidade do homem nunca está só dentro dele. Uma educação integral tem
que
pensar que o mundo faz parte do homem", observou. Para ela, a educação
precisa
levar em conta questões que a nossa cultura deixou de lado, como a
espontaneidade e a liberdade em favor do controle absoluto das
situações.
Pesquisadoras do Cenpec também marcaram presença no
colóquio. A gerente de Projetos Nacionais, Maria Estela Bergamin, falou
sobre
as possibilidades de exploração dos sentidos por meio do trabalho com
oficinas na
educação integral. Já Raquel Souza, da Coordenação de Documentação e
Informação
do Cenpec, discorreu sobre os desafios da gestão de programas de
educação
integral. "A gestão é tanto um compromisso técnico como também político,
já que
abre espaço para que novos atores se apropriem do conhecimento e seja
feito o
controle social das políticas públicas".