
Brumadinho, município do interior de Minas Gerais localizado a 60 km de Belo Horizonte, abriga um dos maiores centros de arte contemporânea do País: o Instituto Inhotim. Criada em 2005, a instituição apresenta uma combinação inusitada de arte contemporânea e paisagismo: seu acervo encontra-se distribuído em meio a lagos e jardins de espécies raras.
Além da riqueza e exuberância do lugar, Inhotim também procura incrementar a experiência de contato com o espaço e seu acervo por meio de um setor educativo bem estruturado. Paralelamente às tradicionais visitas mediadas, oferecidas aos alunos das escolas públicas e a grupos, e das visitas temáticas, direcionadas ao público espontâneo do museu, o Instituto desenvolve o programa Laboratório Inhotim, selecionado na última edição do Rumos Educação, Cultura e Arte, do Instituto Itaú Cultural. Leia mais. Trata-se de um programa de formação continuada para jovens moradores da cidade de Brumadinho com idades entre 12 e 17 anos. Durante um ano, em dois encontros semanais, os participantes desenvolvem atividades de experimentação e incursão no universo da arte contemporânea e na cultura local. “O objetivo é mostrar como aprender a ver arte, como cada um pode trazer a arte para sua experiência e como ela pode ampliar a sua forma de ver o mundo e de se relacionar, através da arte”, explica a coordenadora do Educativo Inhotim, Janaína Mello.
No primeiro semestre, o objeto de pesquisa é a cidade. “Brumadinho é uma cidade que tem várias possibilidades de ocupação e experimentação: tem área rural, de mineração, área de condomínio, comercial... As crianças que participam desse programa vêm desses diferentes lugares. Reúnem-se no museu e voltam para pesquisar que cidade é essa e como ela se organiza dentro dessa pluralidade”, conta Janaína.
No segundo semestre, a mesma pesquisa de campo e mapeamento é feita dentro do museu. Aprendem como um museu se constitui, quais profissionais atuam ali e que função desempenham, como se guarda uma obra, qual o processo de produção de uma obra, entre outros aspectos.
“É o entendimento de que o lugar de onde eu venho é um agente propositor de cultura tão importante quanto um museu. O processo de relação com a cultura, com a cidade, com a minha história, com a minha identidade pode ser muito significativo se feito através da arte contemporânea”, pensa a coordenadora.
Para Janaína, esse trabalho desenvolvido pelo Educativo, que já se encontra no seu segundo ano de existência, pode ser replicado por qualquer organização. “Essa metodologia do Laboratório é muito possível a toda e qualquer experiência de educação não-formal. Todas as ONG’s que trabalham com educação podem sim convidar o público com o qual elas atuam para voltar esse olhar para a cidade”. Ela ressalva, no entanto, que esse olhar precisa ser potencializado por alguns agentes de fomento desse interesse. “No nosso caso, o que fomenta esse olhar sobre a cidade é a arte contemporânea”, complementa.
Embora em um primeiro momento esse diálogo entre crianças e jovens e a arte contemporânea seja difícil, a complexidade das obras permite diferentes explorações e experimentações. “A vantagem de trabalhar com arte contemporânea é exatamente o campo aberto que ela propõe, uma vez que ela não parte de determinadas formas, modos de fazer ou materiais específicos. Ela lida com toda e qualquer possibilidade de experimentação e de contato, de fruição artística. Nesse sentido, ela corrobora imensamente com a nossa prática”, acredita Janaína.