Os saberes do morro na escola
Grande Vencedora Nacional
Projeto Educação e Cultura em Periferias
Associação Casa das Artes de Educação e Cultura
Rio de Janeiro/RJ
Há
dez anos, Sueli de Lima, formada em educação artística e história,
conheceu moradores do Morro da Mangueira e do Morro dos Macacos e
descobriu que tinha em comum com eles a expectativa de uma educação de
qualidade na periferia. Grande parte das crianças e jovens dessas
comunidades não completava a educação fundamental e poucas organizações
sociais atuavam na região para garantir o direito básico à educação.
Formou-se, assim, um pequeno grupo de educadores acadêmicos e
educadores locais para oferecer reforço escolar e oficinas artísticas
no Ciep Nação Mangueirense. Essa foi a primeira ação de uma série que
se espalhou pelas duas favelas e extrapolou o Rio de Janeiro. Hoje 360
crianças e jovens são despertados para o prazer do conhecimento por
meio de pesquisas artísticas, com atividades de dança e musica;
oficinas sobre memória, com fotografia, vídeo e redação; oficinas de
educação urbana, com visitação a museus e centros culturais e oficinas
de pesquisa para a Ciência, com atividades que difundem o conhecimento
da área. A valorização da cultura local é o foco do programa, que se
baseia na troca de experiências entre os conhecimentos acadêmicos dos
educadores que lideram o projeto e os saberes dos moradores dos morros.
Uma metodologia própria elaborada com a experiência prática guia os
trabalhos e virou política pública pelo Ministério da Educação. Em
2008, mais de 1.500 escolas do Brasil participaram do Programa Mais
Educação, que tem por objetivo ampliar o espaço e o tempo educacional
dos alunos da rede pública, e conheceram a Mandala dos Saberes, método
elaborado pelos educadores da Casa das Artes. “Nossa prática é
continuamente repensada porque acreditamos que educação de qualidade se
baseia em fazer e em pensar. Esse
assunto não deve ser preocupação apenas de professores da academia ou
das comunidades, mas de todos que sonham com a verdadeira
democratização do conhecimento”, afirma Sueli, coordenadora geral do
projeto.
Música, instrumento de vida
Vencedora Grande Porte
Projeto Aprendendo com Arte
Fundação Raimundo Fagner
Fortaleza e Orós/CE
As
crianças que participam do projeto Aprendendo com Arte em Orós (CE) são
conhecidas por desfilarem pelas ruas da cidade com um sorriso largo no
rosto. O uniforme (ou farda) da Fundação Raimundo Fagner é motivo de
orgulho no município de 11 mil habitantes. É como se estivesse escrito
em cada camiseta: sou um músico da terra! Assim como o presidente da
organização, o cantor e compositor Raimundo Fagner, crianças e jovens
sonham em encontrar novas oportunidades de vida além das oferecidas no
comércio e agricultura local. Advindos de uma situação de extrema
pobreza – muitos vivem sem água, luz e banheiro –, os 370 participantes
encontram no contraturno escolar a chance de se enriquecerem
culturalmente em oficinas de canto coral, flauta, violão, percussão,
literatura, informática, artes plásticas, idioma, acompanhamento
escolar e reuniões. “A música é só um instrumento para levar
conhecimento e oportunidades para muitas crianças e adolescentes que
anseiam por conhecer o poder transformador da arte”, explica Tereza
Cristina Tavares Gondim, coordenadora pedagógica da fundação.
Na casa, na rua, na praça...
Vencedora Médio Porte
Projeto Novo Espaço: Construindo Saberes com a Comunidade
Casa do Sol Padre Luís Lintner
Salvador/BA
Há
um longo tapete vermelho na entrada da Casa do Sol para lembrar que a
comunidade é importante e sempre bem-vinda àquele espaço. A ideia foi
do padre Luis Lintner ao inaugurar a organização social em Cajazeiras,
um dos bairros mais violentos da periferia de Salvador (BA). No início,
o principal problema da região era a fome. Hoje a maior demanda é a
violência gerada pelo tráfico de drogas. A situação de elevada
vulnerabilidade ficou evidente, quando o padre foi assassinado na porta
de sua casa, no mesmo bairro, em 2002. Até hoje, os culpados pelo crime
estão soltos, mas os tiros que mataram o padre deram mais vida ao
projeto. “Nossas denúncias incomodaram muita gente. Foi um período
muito difícil, mas demos uma guinada quando os jovens perceberam que
eles eram a Casa do Sol e que o projeto dependia do trabalho de todos”,
conta a italiana Guiseppina Rabbiosi, coordenadora e uma das fundadoras
da Casa do Sol. Pina, como é chamada na comunidade, chegou ao Brasil em
1981, movida pelos conflitos de terra no interior do País. Em 1993,
mudou-se para Salvador, ao acompanhar muitas famílias que fugiam do
campo para a periferia da cidade grande. Neste contexto, a organização
passou a oferecer estudos complementares de Português e Matemática,
oficinas de arte-educação, organizadas por critérios de interesse e
faixa etária, com atividades de teatro, dança contemporânea, percussão,
flauta e teclado; acesso à biblioteca e, também, passeios e visitas
culturais. As atividades não ocorrem só na sede da Casa do Sol, mas nas
escolas, nas ruas, e praças do bairro. Como resultado, 239 crianças e
adolescentes de 6 a
18 anos, que participam do projeto, apresentam melhoria no desempenho
escolar e no relacionamento familiar, e se tornaram mais responsáveis e
participativos. Aos poucos, Pina vai saindo de cena para que a nova
geração assuma também a coordenação da casa. “Meu papel será de
fomentadora de novas iniciativas, de ideias e intenções. A Casa do Sol
ainda vai garantir a educação integral de muitas crianças e
adolescentes que vivem à sombra”, afirma Pina.
Ponte para vida nova
Vencedora Pequeno Porte
Projeto Ponte
Obra Social Nossa Senhora das Graças
Vitória/ES
Há
nove anos, Mara Perpétuo, professora de Artes da rede pública, chegou à
Obra Social Nossa Senhora das Graças e encontrou educadores oferecendo
reforço escolar. Mas a nova participante queria mais. Seu sonho era
oferecer oficinas de artes para ampliar o repertório cultural das
crianças e adolescentes atendidas pelo programa e atualizar a
metodologia utilizada pelos voluntários. Deu certo. Hoje 16 educadores
se dividem na rotina diária das atividades que incluem oficinas de
leitura, artes, capoeira, maculelê, educação ambiental, xadrez, dança,
musicalização, percussão, teatro, informática e futebol. A cada
trimestre, um tema interliga todas as oficinas e o resultado final é
uma produção coletiva. No módulo Metamorfose Sou Eu, por exemplo,
crianças leram e produziram textos dramáticos sobre a passagem da
infância para a adolescência, observaram e desenharam a transformação
da crisálida em borboleta e criaram o enredo, o
figurino, o cenário e a trilha sonora de uma peça de teatro. Duas
refeições diárias são oferecidas a quase 200 participantes e
semanalmente os jovens se reúnem para avaliar as ações do projeto e
levantar expectativas e interesses. “Mudei como profissional, pois
aprendo todos os dias com as crianças do projeto que é possível ampliar
horizontes e utilizar a arte como combustível para uma nova perspectiva
de vida”, afirma a coordenadora Mara.
A semente que virou música e arte
Vencedora Microporte
Projeto Musicart
Associação de Mães Educadoras
Porto Seguro/BA
A
paisagem exuberante de Porto Seguro (BA) esconde um bairro que não faz
parte da rota turística. Na periferia da cidade mais visitada do
Nordeste fica o
Baianão,
famoso pelo tráfico de drogas e como origem de muitas crianças e
adolescentes que perambulam pelo centro histórico. “Tínhamos que fazer
algo para mudar essa realidade. Eu não queria perder meus quatro filhos
para as drogas”, afirma Sileide Bonfim, coordenadora da Associação de
Mães Educadoras. Cozinheira com ensino médio incompleto e moradora do
lugar, ela se juntou a outras mães em 2000 para continuar um projeto de
educação criado dois anos antes. Em 1998, um conhecido empreendedor
social, Tião Rocha, coordenador do Centro Popular de Cultura e
Desenvolvimento (CPCD), de Minas Gerais, implantou o Projeto Sementinha
para promover educação popular e desenvolvimento comunitário no bairro.
A organização foi vencedora da 1º edição do Prêmio Itaú-Unicef, em 1995. A continuidade do programa em Porto Seguro
ficou nas mãos das mães do Baianão, que não permitiram o fim da
iniciativa e ampliaram a oferta de atividades. Com o Projeto Musicart,
74 crianças e adolescentes participam de atividades de roda, na qual
podem se expressar, contar notícias e trocar informações, assim como
estudar música – canto coral, flauta, violão, teclado, bateria e
percussão –, participar de reforço escolar, palestras e visitas à
biblioteca e brincadeiras. O programa criou ‘pernas próprias’ e as
líderes voltaram à escola para garantir a profissionalização da ação.
Hoje Sileide é pedagoga e já planeja o curso de pós-graduação em gestão
educacional. “Eu nunca imaginei que chegaríamos tão longe. Com a
educação integral, vamos conseguir combater a exploração da mão-de-obra
infantil”, afirma a coordenadora Sileide.