Diversidade
Trabalho como coordenadora de projetos de educação e cultura. Ao longo dos últimos 10 anos venho criando a pedagogia griô que é uma pedagogia da vivência afetiva e cultural que facilita o diálogo entre as idades, entre a escola e comunidade, entre grupos étnico-culturais interagindo saberes ancestrais de tradição oral e as ciências formais para a elaboração do conhecimento e de um projeto de vida que têm como foco o fortalecimento da identidade e a celebração da vida. Nesta pedagogia, inspirada na tradição oral dos griôs do Mali na África, proponho a criação do lugar do griô aprendiz na comunidade. O griô aprendiz é um educador alegre e afetivo que chega de surpresa nas escolas e comunidades encantando e mediando os saberes da tradição oral com os saberes que estão sendo elaborados na escola.
Nas caminhadas de ocupação/invasão encantadora das escolas, as diferenças étnico-culturais-religiosas são recorrentes. Um dia estávamos entrando em uma escola com nossa brincadeira para contar a história do príncipe afro-baiano Dom Obá, meu conterrâneo, mas um herói desconhecido pela maioria dos autores de nossos livros e projetos didáticos. Mais de 300 estudantes, educadores e coordenadores pedagógicos ficaram envolvidos na aula espetáculo e nas rodas na escola. Outras pessoas estavam na periferia das rodas. Fui me colocar na periferia para sentir e ouvir o que as pessoas estavam sentindo e falando. Uma educadora de história falou assim para uma das fiscais de corredores – da próxima vez vocês me avisam que vai ter macumba na escola para eu não vir.
Depois dessa caminhada e aula espetáculo nos corredores e pátios da escola, a direção e coordenação pedagógica me convidaram para realizar um encontro de formação de um dia para os educadores. Tivemos a oportunidade de conversar sobre esta palavra geradora e tão grávida de sentidos Macumba. Os educadores ficaram muito emocionados com a oportunidade de vivenciar sua própria ancestralidade e identidade a partir da história de Dom Oba e repensar a sua pedagogia a partir do encanto de um griô.
Quando a gente estuda e vivencia nossa ancestralidade, diversas questões sobre educação e diversidade nos saltam aos olhos diariamente, os exemplos são infinitos, criando diálogos possíveis ou impossíveis nas práticas de conteúdos curriculares, mas sempre denunciando e anunciando a questão da diversidade. Numa destas caminhadas a direção da escola fechou a sua porta porque sua opção religiosa não permitia que os estudantes pudessem escutar um tambor. Perdemos a oportunidade de conhecer a história do tambor, do artesanato no mundo e do processo de industrialização e de aprender a tocar tambor.
Além de educadora, sou mãe de dois filhos. Meus filhos cresceram vendo o pai, um griô caminhante nas comunidades e escolas contando outra história do Brasil e dialogando com os diversos grupos étnico-culturais e religiosos. Tem pouco tempo que meus filhos começaram a frequentar a escola. Num dos primeiros dias de aula um deles voltou para casa e falou – Mainha, o que é pai nosso ?. Eu respondi – o que você acha que é ? – é uma reza,né ? – onde você aprendeu sobre isso ? – todo dia a pró está abrindo a aula com o pai nosso e eu sou o único que não sabe. – Você quer aprender ? – não, meu jeito de conversar com deus é diferente, e meu deus é diferente do deles.
Portanto bilhetinho da mainha para a pró: - Pró, se você vai abrir a aula rezando o pai nosso todos os dias , então você vai ter que perguntar para meu filho como é que ele conversa com Deus para que todos aprendam e conversem juntos todos os dias, não é ? No dia seguinte uma conversa com o meu filho - Mainha, a pró me perguntou como é que eu converso com Deus e pediu para que eu ensinasse a todos; - E como você fez ?;
- Eu pedi para todos darem as mãos em roda e fecharem os olhos, mas eles não sabiam fazer a roda direito; - e como foi que você conversou com Deus ? - conversei como sempre converso, no pensamento; - E quem é deus para você ?; - É deusa, é a Mãe Natureza. E tem outras pessoas lá que não acreditam nesse deus do Pai nosso. Daí segundo bilhetinho para a pró : - Pró, se o grupo vai rezar pai nosso todos os dias e vai conversar em roda e pensamentos com a deusa Mãe Natureza de meu filho, acho que você vai ter que perguntar também para aquele coleguinha que é do candomblé como é que se conversa com os Orixás e Caboclos, e todo o grupo terá que aprender com ele também. Resposta da pró: - Mamãe, não dá tempo fazer tantas conversas com deus cada dia, por isso eu tinha proposto fazermos ao pai nosso que a maioria sabe. Último bilhetinho para a pró: - Pró, se não dá tempo fazer todas as conversas com deus é porque a escola não é o lugar de exercitarmos nossas crenças em deus. Mas com certeza é o lugar de exercitarmos perguntas sobre as coisas.
A escola é laica ou é católica? Por que será que a maioria é católico? A educação se dedica ao que a maioria sabe ?
Líllian Pacheco é educadora e coordenadora do Grãos de Luz e Griô e Ação Griô Nacional
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