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Mídia, juventude e participação: uma aposta em novos olhares

DetalhesTema: Mídia
Autor: Rafaela Lima
Publicado em: 2008
Tipo de Mídia:
Data de Criação: 12/05/2009

O desafio da participação juvenil no campo da comunicação está colocado: o discurso "a televisão te manipula" e a idéia de que é preciso vacinar os adolescentes e jovens contra o envenenamento de suas consciências operado pela mídia não dão conta da complexidade do fenômeno da interação cotidiana da juventude com as tecnologias e meios de comunicação e
informação.

Os jovens reivindicam que não os reduzamos ao estereótipo de "consumidores passivos de mídia de má qualidade"[1]. Afinal, como bem afirma Michel de Certeau, consumir não é apenas absorver, assimilar mecanicamente. É uma prática social: a partir de nossas vivências e
circuitos de sociabilidade, reinventamos o que consumimos. Na esfera do consumo, "se esconde a atividade silenciosa, transgressora, irônica ou poética, de leitores (ou telespectadores) que sabem manter sua distância da privacidade e longe dos ‘mestres'"[2].


A juventude cria circuitos próprios de ressignificação para os mais diversos conteúdos midiáticos com os quais convive no dia-a-dia: "eu gosto muito de TV, mas é isso: a gente vai pegando uma coisa daqui, outra dali, conversa com um e com outro, não é tudo que presta e a gente aproveita, não"[3]...

O potencial crítico da juventude é um elemento fundamental, que precisa ser valorizado pelos projetos, espaços e instituições voltados à mídia-educação. Não me refiro a uma aposta ingênua, que subestimaria a força e a influência dos meios de massa. Mas não penso, tampouco, em subestimar os jovens, oferecendo a eles um "julgamento pré-estabelecido" da mídia e seus conteúdos. A verdadeira crítica - a que mobiliza e gera transformações - é
aquela construída pelos próprios sujeitos.

A idéia é promover a "autonomia interpretativa"[4]. Em contraposição à proposta de "ensinar o usuário a se defender da mídia", apresentando a ele interpretações prontas, o que se
busca é criar esferas de debate, nas quais circule uma ampla diversidade de referências e de pontos de vista; é "estimular uma cultura de opções pessoais e de grupos que qualifique os usuários a fazerem sua própria crítica, por sua conta e risco"[5].


Colocar-se de forma crítica e ativa no universo midiático, contudo, implica em ir além, percebendo-se como um sujeito que tem direito à expressão. A esfera dos meios de comunicação, historicamente, opera uma exclusão simbólica profunda. Exclusão que atinge fortemente a juventude. Os jovens que vivem em periferias e outras regiões de baixa renda geralmente são representados na mídia em associação à violência, à criminalidade, à falta de
perspectivas. A produção cultural e as redes de solidariedade construídos nas relações cotidianas não têm visibilidade.


Os meios de comunicação são espaços públicos, e os indivíduos e grupos têm direito a ocupar tais espaços para construir e disseminar sua própria imagem. Trabalhar com mídia-educação significa disseminar este direito e instigar as pessoas e grupos a exercê-lo. Experiências de mídias participativas construídas por jovens, em curso nos quatro cantos do país, nos mostram que há uma diversidade de juventudes com muita criatividade e energia para apropriar-se das tecnologias e meios de comunicação, mostrando realidades plurais e tecendo redes colaborativas. É a partir dessa energia transformadora que, acredito, se faz possível a construção efetiva de novos olhares e novas perspectivas para a comunicação midiática.







[1] Depoimento de Warley Bombi, jovem que atua na AIC - Associação Imagem
Comunitária (www.aic.org.br), ONG que trabalha no campo da comunicação para a
cidadania.



[2] CERTEAU, Michel de. A invenção do
cotidiano I
: Artes do fazer. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 268.



[3] Depoimento de Marco Aurélio, morador do bairro Ribeiro de Abreu (Belo
Horizonte) à AIC.



[4] Vide BRAGA, José Luiz. O Sistema social crítico interpretativo. In:
AIDAR, José Luiz (Org.). Crítica das práticas midiáticas - da sociedade de massa às
ciberculturas. São Paulo: Hacker Editores, 2002. p. 27-43.



[5] Idem, página 36.

AnexosNenhum anexo relacionado.

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