É hora de mirar o futuro
O momento de crescimento econômico pelo qual passa o Brasil é uma oportunidade para se alterar a perspectiva do papel da juventude na sociedade brasileira, o que requer ajustar também o enfoque dos debates em torno do tema. Se a educação sempre foi reconhecida como essencial, outras urgências se apresentavam, porém, em pé de igualdade na construção de qualquer proposta destinada a esse público. É claro que tais urgências não desaparecem como gelo que se derrete com o aquecimento econômico. Mas, ao se atenuarem, permitem que se olhe mais detidamente para o futuro, mudando a perspectiva do lugar da educação no debate: prioritário, definitivo e, agora, de médio e longo prazos. Enfim, educação para o século 21.
A grandeza dos problemas econômicos e sociais brasileiros, agravados nos anos 80 e estagnados nos 90, conformou a opção de alguns segmentos da sociedade pela juventude como alvo prioritário de ações de apoio e promoção de direitos. Essa eleição se deveu, em parte, à percepção da juventude como segmento com características específicas, algumas das quais, no caso do Brasil, potencializam vulnerabilidades variadas (educação precária, desemprego, subemprego, uso e tráfico de drogas, violência, gravidez precoce).
Mas essa moldura, que vem conformando os debates desde os anos 90, tem sofrido alterações. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostra que o crescimento das vagas no mercado formal tem beneficiado principalmente os jovens (93% dos novos trabalhadores formais têm entre 16 e 29 anos). Também a educação juvenil (ainda fraquíssima, sem dúvida) registra avanços: o segmento juvenil é hoje o que tem mais anos de estudo acumulados.
Mesmo que sujeitas a uma dissecação que apontem suas precariedades intrínsecas (salários baixos, educação de má qualidade), essas são tendências positivas. Se se prolongam no tempo, consolidam mudanças importantes. Observe-se que um número maior de jovens "mais velhos" (25 a 29 anos) empregados significa menor pressão econômica (familiar e social) sobre os mais jovens (16 a 24), que assim podem se dedicar mais aos estudos. E agora, sim, quais estudos?
A perspectiva de capacitação para geração de renda dos jovens das camadas mais pobres naturalmente não pode ser desprezada, mas, cada vez mais, precisa ser integrada a um compromisso definitivo e inarredável com sua educação -- formal e informal. À sociedade cabe refletir e indicar que tipo de formação sua juventude precisa ter para lidar com as questões postas pelo mundo contemporâneo: novas tecnologias, mudança dos processos de produção e circulação de produtos e informações, riscos ambientais. À escola formal cabe se dar conta da realidade contemporânea da juventude e formular novas pedagogias, capazes de atrair corações e mentes. A educação informal tem muito com que contribuir neste processo, como laboratório de novas tecnologias educacionais e pedagogias inovadoras, e também como parceira privilegiada, com a qual a escola formal pode contar na extensão de suas atividades. Afinal, muitas vezes os processo de transformação exigem pontas de lança e pioneiros, mas as mudanças sociais não se concretizam sem o envolvimento de todos os segmentos.
Josiane Lopes é jornalista, diretora editorial da revista Onda Jovem (www.ondajovem.com.br), patrocinada pelo Instituto Votorantim




