Corpo, dança e cidadania
Miriam Matsuda*
Somos conscientes de alguns aspectos pelos quais consideramos importante a prática de exercícios físicos atualmente. Para nós, é comum relacionarmos estas ações ao desenvolvimento psicomotor, à promoção e manutenção da saúde física além da sociabilização.
Devemos perceber, porém, que as práticas corporais, associadas às linguagens artísticas, nos propiciam várias possibilidades nem sempre observadas. Estas nos oferecem inúmeras formas de contribuirmos para o desenvolvimento de pessoas apropriadas do seu processo de crescimento humano individual e coletivo, a favor da autonomia.
Na dança contemporânea, por exemplo, onde corpo é o principal meio de elaboração e expressão daquilo que o artista ou praticante de dança deseja comunicar, toda a linguagem desenvolvida, por meio de movimentos, ganha significados diversos e expressam estados sensoriais, sensações, emoções e pensamentos a quem os assiste.
Estimulamos desta forma, a sensibilidade e a subjetividade, expondo e desenvolvendo idéias, utilizando o corpo como meio de elaboração e expressão. Na dança, podemos explorar e oferecer uma experiência extremamente rica, complexa e simultaneamente delicada a quem a pratica. Rica e complexa em tudo que a própria ação de dançar oferece em relação ao corpo e ao conhecimento da sua fisicalidade: o conhecimento das estruturas anatômicas corporais, as relações do corpo com o peso, o tempo, o espaço, o refinamento motor dos movimentos, e a transformações cênicas dos gestos e ações do cotidiano.
Ao conhecermos nossas estruturas corporais percebemos que somos semelhantes às outras pessoas na nossa estrutura anatômica mas, simultaneamente, entramos em contato com o fato de que cada um de nós possui uma configuração corporal que nos faz diferentes uns dos outros e esta singularidade se estende à maneira que pensamos, agimos, nos expressamos e criamos artisticamente.
Desta forma, entendemos por meio do corpo e da prática da dança que não existe uma forma certa de ser e, por conseqüência, não existe um padrão corporal ou comportamental a ser seguido e respeitado.
A delicadeza desta experiência está no cuidado e respeito que devemos ter como artistas e arte-educadores ao saber que ao lidarmos com o corpo, lidamos diretamente com a pessoa, com uma pessoa que é seu corpo, e nos questionarmos sempre a respeito das imposições que todos nós somos submetidos nos nossos dias, em relação aos padrões estéticos corporais.
A delicadeza está também em saber promover por meio das práticas artísticas, da prática da dança, o desenvolvimento individual em função do desenvolvimento do potencial humano, das relações que são possíveis serem estabelecidas em grupo.
O que chamamos inicialmente de gesto, movimento, ação corporal, pode se transformar em atitude, comportamento, relacionamento humano. Ao propiciarmos a experiência da sensação de leveza em dança, ou realizar um movimento direto, ao direcionarmos a atenção de uma pessoa para si no momento da prática artística, ao orientarmos a prestar atenção ao seu espaço corporal, ao espaço que ocupa individualmente e quais relações pode estabelecer com seu grupo, podemos estimular comportamentos, hábitos de respeito à individualidade, um olhar ampliado para o outro e a decisão de romper ou não limites pessoais e relacionais.
Ao orientador desta experiência cabe o olhar generoso da proposta e ao sermos propositivos, ao favorecermos o desenvolvimento da criatividade por meio dos movimentos, imediatamente propomos ampliar o senso estético. Ao relacionar-nos criativamente e colaborativamente em grupo, aceitando o que é diferente nas percepções individuais, aprendemos a desenvolver um olhar amplo em relação às várias formas de ser e enxergar o mundo. Ao colocar idéias e movimentos diante de um grupo, elaboramos formas de nos colocarmos na sociedade e concretizarmos nossas opiniões.
*Miriam Matsuda é coordenadora artístico-pedagógica do Centro de Dança de Santo André, pós- graduada em Estudos Contemporâneos em Dança pela Universidade Federal da Bahia em 2004.




