Segregação e juventude na Favela Coliseu
Daniel De Lucca
Centro de Formação
Cidade Escola Aprendiz
A Comunidade Coliseu é uma pequena favela encravada num dos bairros mais nobres de São Paulo: a Vila Olímpia. Ali, junto com a associação de moradores locais e outros agentes públicos e privados, a Cidade Escola Aprendiz desenvolve estratégias de comunicação e articulação territorial que buscam superar os mecanismos de segregação urbana que isolam aquele lugar e que impedem que seus habitantes construam um efetivo direito à cidade.
Ainda que pequenina, a favela é muito bem demarcada, tanto materialmente, pelo contraste de sua extrema pobreza com a riqueza do entorno, quanto simbolicamente, pelos discursos ali investidos e que terminam por construir a imagem de um lugar incivil, perigoso e responsável por quase tudo de ruim que acontece na região. Não por acaso, com a intenção de transmitir mais segurança para a região, foi instalada uma base comunitária da polícia militar na única entrada daquela rua sem saída, o que deixou os habitantes da Coliseu literalmente ilhados.
Visando coibir o tráfico de drogas e outras práticas ilegais, a base funciona como um dispositivo de identificação e controle para tudo que entra ou sai do lugar. Ainda que isso constranja todo o cotidiano da favela e enclausure ainda mais aquelas mil e duzentas vidas, são os jovens os principais alvos da suspeita e da violência policial. Duzentos jovens que, devido às sucessivas práticas acusatórias a que são submetidos, com o tempo incorporam o estigma e o rebaixamento moral. Com vergonha de interagir com o suntuoso espaço circundante, eles se vêem deslocados e não se reconhecem como cidadãos.
Depois de três anos de intenso trabalho com as famílias da favela, algumas coisas começaram a mudar. Pela primeira vez, se conseguiu que todas as quatrocentas crianças do local estivessem na escola ou na creche. Também, a associação local se fortaleceu e passou a organizar uma série de atividades tais como festas, encontros com parceiros e cursos de capacitação. Além disso, a elaboração de um jornal da comunidade, A Voz da Coliseu, conseguiu formular um discurso contrário àquele que os identificam como "favelados marginais".
Contudo permanece o desafio de se trabalhar com uma juventude segregada que não é aceita no bairro onde mora e que é privada dos recursos que a cidade pode oferecer. Tudo isso, justamente num momento em que o Estatuto da Criança e do Adolescente, com dezoito anos de existência legal, paradoxalmente, alcança sua maioridade sem alcançar seus objetivos fundamentais.




